Os horizontes estão entre as obsessões artísticas de Anete Ring: eles se encontram presentes, de uma maneira ou de outra, em quase todas as obras incluídas nesta mostra, como se tentassem fixar, no fundo da tela, um olhar em busca permanente. A idéia dessa busca aparece, também, naquilo que se dirige para esses horizontes: ora caminhos que cruzam uma paisagem desolada em direção ao infinito; ora a luminosidade que emana de superfícies líquidas e faz pensar na travessia de grandes extensões de água, em trajetos que partem não se sabe bem de onde – mas cuja meta parece estar, paradoxalmente, no horizonte. É como se aqueles que fixam com o olhar este lugar prometido, sempre ali no fundo das telas e desenhos, fingissem não saber que sua meta é inalcançável: o horizonte, por definição, está sempre mais além, porém um impulso atávico, um ímpeto ancestral e irresistível, empurra o olhar, sempre, para esse lugar que não é um lugar, esse ponto que se define pela distância insolúvel. É sua inatingibilidade o que mantém acesa a chama do desejo de seguir adiante. Se o mito da distância, das andanças e das diásporas fundamenta a obra pictórica aqui apresentada, há também trabalhos que aludem à solução dos enigmas que o horizonte propõe: um caminho que termina abruptamente e mergulha no vazio é o término, forçado ou deliberado, de todo deslocamento horizontal. É, igualmente, um encontro, desejado ou não, com o hic et nunc, o aqui e o agora. O deslocamento, agora, dá-se apenas no eixo vertical: em direção às profundezas ou às alturas, que são, também, espelhos uma da outra. Novas dimensões revelam-se, a partir daí, como novos arranjos para antigos paradoxos: a partir de recortes verticais, a paisagem infinita deixa-se capturar pelos limites de um olhar lateral, pela finitude que é a marca e o sentido da existência. E assim cativada, humaniza-se, torna-se menos majestosa, também menos terrível, talvez mais sábia.

 

Luis S. Krausz 

 

 

Uma cartografia particular
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