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Bené Fonteles, 2005

O FORASTEIRO

Indo à raiz da língua latina, fotografar é escrever com a linguagem da luz.
Silvana grava com a língua das sombras um estranho itinerário desenhado com luz lunar, outras fotografias. Este roteiro sensorial, parece acompanhar pelas ruas de uma noite eterna, um poeta cego, Borges, o que tateia com um outro olhar sua cidade agora também imaginada: Buenos Aires?
De dentro do olho forasteiro revela-se a foto-pintura de grafismo ímpar que dá meandros a labirintos, forja as “imprecisas imagens” de que vazam sonhos...
Por dentro da câmera estrangeira mecânica e quase exata, caixa de Pandora “na inumerável penumbra”, a artista e poeta, deixa sangrar estas imagens do profundo. A força da cor é que desenha a forma, abre numinosa a sensitiva porta, rompe luminoso olhar para outra urbe, angula imensas dimensões para uma nova paisagem humana.
A fotografia aqui deixa o raso do documento, e se monumenta como arte. Inscreve com perigo e no limite tão necessário à arte que é a dúvida, uma “outra linguagem” sem margem e soberana.
A grafia é mais leal ao reino da gravura: iluminuras contemporâneas. Deixam fluir de dentro do escuro, infernos e céus para a glória do que vem morar no olhar e ficar imerso na raridade da luz.
Por detrás da câmera, a “estrangeira”, aponta a arma que apenas esboça alguma imagem. Ela, a artista, depois a refaz com artezania rara em seu atelier eletrônico.
È ali no lugar da veladura que se dá a revelação do poder e da magia pelo “desconhecido que se crerá em sua cidade”. Mas, no entanto, a grafia da poesis, vai urdir uma outra e densa cidade de penumbras, dando corpo assim ao vasto encanto. Estas imagens poderosas nos alumbram, e por isso, nunca “feitas para o esquecimento”.