Do destrutivo da fotografia

Em analogia à frase de Enzensberger, segundo a qual o turismo de massa destrói aquilo que ele procura, pode-se afirmar que a fotografia, enquanto um veículo de massa, destrói aquilo que ela procura!

Se o mito do cowboy, por exemplo, já é uma mera imitação dos mártires religiosos, essa utopia do Puro, do Livre, do Bom converte-se inteiramente em embuste naquelas fotos do cowboy da Marlboro ou nos projetos fotográficos de um Herb Ritts e outros fotógrafos que tentam fazer crer a mim e a você que todos nós poderíamos alcançar, com um simples trago de cigarro, aquela mesma liberdade, pela qual São Sebastião e outros santos, através de suplícios e ascese, e mesmo o herói do Faroeste, arriscando a própria vida, tiveram que pagar um alto preço.

E assim como o diretor do Faroeste copia no cinema a lenda dos santos mártires, assim como o fotógrafo da Marlboro destrói o mito do cowboy em sua plena solidão, ao multiplicá-lo infinitamente e ao expô-lo, por assim dizer, ao turismo de massa dos contempladores das fotos, da mesma maneira a fotografia destrói, hoje em dia, até mesmo essa cópia da cópia, ao transformar, repetidas vezes, a arquetipificação da imagem humana - segundo a concepção fotográfica de August Sander - em objeto de uma tipificação, perpetuando-a em sempre novos registros fotográficos dentro um sistema padronizado.

Baudrillard, o filósofo que se auto-estilizou como um mito norte-americano, descreve esse processo como a transição de um espaço histórico para um espaço publicitário. Ele descreve esse processo como uma campanha gigantesca, direcionada não mais para o futuro, e sim para o passado.

Será então que estamos, através de nossas imagens produzidas artificialmente, através da fotografia (e evidentemente do cinema), fabricando uma memória sintética, capaz de substituir o verdadeiro mito e de libertar-nos das amarras dos acontecimentos reais?

Na era da comunicação de massa, a fotografia não consegue mais erigir uma ponte entre as essências e as aparências. Ela destrói a vida real de seus objetos, como no filme cult "Peeping Tom", no qual as mulheres que se deixam fotografar de bom grado pagam essa prontidão com a própria vida. Se analisarmos esse filme sob a perspectiva do protagonista, o cineasta mata o objeto de seu desejo, depois de tê-lo fotografado.

 

Da dissolução da arte no mundo

Em contrapartida, as Artes Plásticas, e, como uma parte desta, a fotografia artística, conseguem hoje realizar aquilo que Schiller tinha em mente: uma arte que suprime a si própria e se concretiza no mundo como uma forma ideal de vida. Em seus melhores momentos, as Artes Plásticas conseguem concretizar essa utopia artística, existente desde o início da Modernidade.

Freqüentemente, isto acontece como naquela história de Paul Auster onde o detetive particular Blue é encarregado por White de observar Black. Enquanto Blue observa Black, ele percebe que também é observado por Black. O que, a princípio, confunde Blue, acaba por fasciná-lo, ainda mais porque o fato de o objeto de sua observação observá-lo termina por se transformar em justificativa de seu próprio ato. Por fim, Blue não desmascara Black, conforme a incumbência recebida, mas Black, armado, espreita a sua chegada, e lhe comunica seu contentamento por Blue finalmente tê-lo descoberto. A essa altura, torna-se evidente que Black é White.

A analogia é óbvia. Nós, os contempladores, somos Blue, e a Arte é Black. E, enquanto acreditamos sermos nós a contemplar a Arte, dá-se  ultimamente o contrário: a Arte nos contempla.

 

A despedida do "que existiu"

Ainda essencialmente diferente é a tradicional contemplação do meio "Fotografia", para a qual Roland Barthes pressupõe algo "que tenha existido", o "foi-assim". Mais uma vez, podemos nos servir de Barthes como uma testemunha que postula que o referente fotográfico, ou seja, aquilo a que a fotografia se relaciona, aquilo que ela retrata, não é "possivelmente a coisa real", e sim "necessariamente uma coisa real, posicionada diante da objetiva, e sem a qual não haveria fotografia".

A diferença que o filósofo faz entre fotografia e pintura ressalta novamente o ponto essencial: "A pintura pode muito bem simular uma realidade, sem tê-la sequer visto", ao passo que, no caso da fotografia, é impossível negar "que a coisa tenha realmente existido".

Paulo Greuel não se ocupa em retratar realidades. Ele quer criar novos mundos, irreconhecíveis a olho nu. Ele quer produzir imagens que falem por si. Dessa maneira, tentou se distanciar das noções de espaço e tempo e se libertar da sensação de que uma foto deva ser o registro de um acontecimento.

 

Fazer a luz falar

Dessa forma, Greuel produz aquilo que no título desse ensaio chamei de fotografia virtual. Uma foto que estabelece suas próprias normas, que em sua existência e forma vai até os limites do possível - ou melhor, do impossível! Assim, ele cria a chance de possibilitar novas possibilidades, de tornar o impossível possível.

Mas o que acontece, quando uma foto deixa de ser o registro de um acontecimento, de algo que já existiu? Então, ela só pode ser a porta para algo fantástico. Um olhar rumo ao futuro das emoções.

Nós poderíamos finalmente abandonar nossos velhos e queridos hábitos visuais, que William S. Burroughs comparou com um motorista de carro que sempre olha pelo retrovisor. A fotografia mostraria, portanto, aquilo que lhe é próprio; ela poderia mostrar o que para nós ainda está a anos-luz de distância; poderia alcançar, o que apenas ela pode, ou seja, fazer a luz falar. A fotografia pode criar a imagem virtual.

 

Fazer coisas que não sabemos o que sejam

A foto virtual pode realizar aquilo que Adorno já tinha reconhecido em um momento utópico, ou seja, pode "fazer coisas que não sabemos o que sejam".

A foto tradicional é sempre uma imagem concluída, uma representação de algo que já existiu. Isto determina, há séculos, o discurso estético.

A foto sintética rompe radicalmente com essa tradição. Ela não representa mais. Ela simula. Não mostra nada que já existiu, nada existente. Nem mostra o "foi-assim" de Roland Barthes, mas sim o "o-que-nunca-existiu".

A partir do real (seres humanos, objetos, objets-trouvés), Paulo Greuel cria fotografias que, ao invés de reproduzir o que já existiu, projeta espaços imagéticos virtuais. E, quanto maior a "distância" do objeto, mais convincentemente ele consegue virtualizar a imagem. 

 

Tradução: Adriana Nunes-Hänel

Werner Lippert, 1998

 

Texto para o catálogo da exposição Fotografien de Paulo Greuel em 1998.

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PAULO GREUEL: A FOTOGRAFIA VIRTUAL