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Os homens — porque são homens, não esqueçam — que fazem arte, hoje, temem declarar-se artistas. Aí está a profunda diferença entre um artista de ontem e um artista de hoje. Nicolas Vlavianos, o grego, Vlavianos, o homem, Vlavianos, o escultor é vítima dessa contingência. Vítima, isto é, produto da ambivalência fundamental. Nascido em Atenas, embora, ele é grego, sim, mas de fora de Atenas: bárbaro. Não se prosternou nunca diante da colina sagrada. A Grécia, no entanto, do Peloponeso à Tessália, é, toda ela, a natureza de uma cultura. Ou a cultura de uma natureza (e com que esplendor espontâneo!). Entre a natureza e a cultura não há lugar para assentar um pé estrangeiro. O tempo porém cavou fenda entre uma coisa e a outra. As ruínas surgiram, então, iguais, como o rosmarinho e a oliveira, da Tessália ao Peloponeso. O tempo, contudo, não pôde continuar a fazer ruínas porque estas ganharam eternidade, inserindo-se entre a natureza e a cultura. Qual um apanhador de cacos, o artista sobrevive como verme naquela fenda, e perscrutando os resíduos, os detritos das obras, dos objetos que os homens fabricaram e largaram, ei-lo, moderno e vivo, necessitado e curioso, como um vira-latas, na sua faina de juntar heteróclitos pedaços de coisas onde o destino, a lembrança, a ciência dos homens continuaram a inserir-se, desde aquela Grécia. Vlavianos partiu da Grécia, de saco às costas.

Veio para o Brasil, via Paris, naturalmente. E começou a juntar o que pôde de sua longa viagem (para artista, toda viagem é odisséia) — pedaços de ferro velho, parafusos, pregos, e os bateu e os soldou. Pela violência da solda queria, visivelmente, impor uma vontade afirmadora aos trastes disparatados que carregava. Foi quando o conheci em São Paulo. No fundo dessa vontade estava a imagem ou os restos de imagem de um pensamento humanista, longinquamente traduzido nos monstros, nas massas confusamente compactas que saíam de suas mãos. São Paulo quase o mundaniza. Quer dizer, afasta-o de suas reminiscências arcaizantes, e (se ele fosse pintor, acrescentaria eu, tentando explicar melhor o pensamento) sua “palheta” alteou-se, enriquecida de novos tons-materiais, chumbo, plástico, sobretudo alumínio. Acentuando a pictorização da sua escultura, ele abandona as funções e superposições de pedaços de ferro, de maços de pregos e parafusos amassados no espaço tridimensional, e nos apresenta uma escritura de signos abstratos, que nos convida a ler e não mais a abarcar ou sentir pelo tato em painéis brilhantes, superfícies metálicas trabalhadas, gravadas de formas inconclusas e repetições rítmicas. O escultor procura inconscientemente formular uma idéia sobre o plano, enquanto martela a superfície, pontuando-a, à procura de uma sintaxe para a idéia.

Desse esforço de significância em que concentrou, por um momento, seu pensamento escultórico, era quase natural que o duelo entre a forma e a não-forma, a perseguir ininterruptamente, toda sua obra, se exteriorizasse afinal numa oposição mais ampla entre a idéia, o elemento inteligível, e a substância incriada, a matéria, a natureza. Vlavianos exprimiu esse duelo nos elementos geométricos, que introduz na composição, e o elemento geométrico que outrora, isto é, há bem menos de um lustro, se dizia informal. As estruturas com rebites e parafusos distribuídos regularmente em intervalos iguais, introduzidos isolitamente nos amontoados argamassados de seus materiais, diriam do que nessa obra sempre aberta a novas conjeturas e novos acrescentamentos é disciplinado, é lógico. E, para o artista, paradoxalmente passivo. Em contraste, vêm as partes juntadas ao acaso, resultantes por assim dizer involuntárias ou incontroladas da pressão de pedaços de ferro que ele solda numa direção rítmica na vertical, ou, mais freneticamente por vezes, num movimento espiralóide. Aqui é o momento em que o artista no escultor se entrega ao seu demônio interior, agressivo e imprevisível. Ele chegou, uma feita, a nos dizer que isso era, então, sua action-sculpture.

Da oposição desses dois elementos que apareceram primeiramente isolados um do outro, ele parte a tentar uma nova expressão de síntese. Nasce, com efeito, daquela oposição fundamental um ser ambivalente, desses que coabitam essa área imantada da imaginação contemporânea onde vivem, na promiscuidade, o espectro dos antepassados e o autômato das atualíssimas lucubrações tecnológicas.

Nicolas Vlavianos, descendente longínquo dos arcaicos gregos, como nós outros todos o somos de mil outros arcaísmos, participa da mesma família dos Paolozzi, que não se conformam em permanecer, burguesmente, no sólio daquela área mítica, e tentam penetrá-la para dar ao ser humano a dimensão do mítico e ao mítico a dimensão do humano. Suas armações são, talvez, uma tentativa patética de chamar os espectros e os autômatos a virem habitá-los, juntos, como numa casa de pombos.

 

 

Mário Pedrosa, 1966