A referência ao âmbito temporal, que lhe veio da natureza mesma da pintura, a qual, contas feitas sobre o exemplário da sua história, quase toda ela é arte não apenas alusiva ao tempo, mas arte do tempo. Quer seja no exercício, quer seja na fruição, onde o olho se vê obrigado a seguir itinerários sucessivos ,  quer, por fim, na condição do conteúdo.
A precisão lhe veio do ofício da engenharia, onde cabe calcular; onde a acuidade se torna requisito da sobrevivência.
A técnica. Veio-lhe esta das vizinhanças da farmácia ou da culinária, que pressupõem esperas, temperos e provas.
A poética. De onde lhe veio esta, é outra história.
De mais que incontáveis funções do cérebro já deu conta a ciência que, por mister , deslinda e explica. Há  contudo na experiência artística algumas incumbências que, com licença dos especialistas, parecem escapar ao domínio das químicas endocrinológicas. Uma delas é a capacidade de transfigurar, que encontramos na pintura de Juliana como impulso determinante. Por um lado independente das adrenalinas da vida, por outro lado, aplicação serena, mais estimulante que estimulada. Trata-se de olhos que já não são olhos, que não agem como registradores interessados. Trata-se da imaginação, que perde sua gestão liberadora . Nessa conjuntura, nem é de invocar-se o automatismo, que viria à tona para a análise, nem de consignar a reflexão, que irá mergulhar na surpresa. Suponhamos apenas uma função enigmática a qual, no trabalho plástico da artista, diz respeito mais à harmonia do que ao ritmo e à melodia (não esqueçamos que a pintura, como já supusemos, é também arte do tempo).
A pintura de Juliana parece-nos poeticamente importante porque integra um questionamento visual, não descritivo; porque configura possível e desejável problematização da capacidade que- queria o destino- talvez ainda haja de se introduzir no tecnicismo da (in)civilização atual mediante aquele ingrediente que humanismo crítico que recusa curvar-se ao domínio da mera estatística. A cidade de Juliana. Nova, sim, inédita, porque contém um toque que provém dos celeiros, é verdade que hoje fragilizados, da sensibilidade singular do artista. Escala-se essa cidade por rampa que não leva ao passado, do qual se faria uma resenha; nem conduz ao futuro, ao qual se daria sentido de expectativa. Há de ser assim já que não falamos da cidade tópica, mas da cidade utópica. Rampa, aquela, que aponta  portanto ao presente, o presente do coração desperto.
Olhemos com atenção ou, de preferência, distraídos. Se não vamos nos deparar com a cidade mecânica, ingenuamente mecânica, das feiras de fim de semana, também não toparemos com a cidade conceitual de uma experiência formal de vanguarda. Encontraremos, sim, um ponto nevrálgico nessa circunferência que a sensibilidade traça, indivisível e incompartilhável, do seu todo, pois cada referência nesse caminho é diferentemente essencial a uma incompletude que só no centro de si mesma,-no princípio, portanto-, achará sua íntima identificação. Assim ficará aberta a possibilidade das relações. A pintura de Juliana está cheia destas. Muito ricas. Sendo obrigatório que, para ter consistência a  teia de relações, é preciso que haja qualidade, respiramos aliviados quando, na visualidade da poética urbana que nos propõe Juliana Hoffmann surpreendemos o texto que supera registro e enfeite para atingir a coesão da verdadeira linguagem.

João Evangelista de Andrade Filho


Texto para o catálogo da exposição individual no MASC em 2004.

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