Artista visual Diego de los Campos evoca reflexões e tensões sobre a representação do corpo feminino

Arte e vida, vida e arte, binômios que se impõem em Precipitação, obra que integra o 11° Salão Elke Hering

O trabalho Precipitação, de Diego de los Campos, integra o 11° Salão Elke Hering – Mostra Nacional Contemporânea de Artes Visuais, que se estende até o dia 21 de julho no Museu de Arte de Blumenau (MAB). No memorial descritivo do artista consta: “Este vídeo mostra num primeiro plano frontal a cabeça de uma Barbie submergida em solvente. A pintura do rosto da boneca cai lentamente em forma de gotas até ficar praticamente sem tinta”. A duração é de 10 minutos.

Uma produção simbólica que suscita reflexões sobre a representação do corpo feminino. Do lugar de arte-educadora, uma análise crítica desta produção artística propõe pensar nas representações da visualidade sobre as mulheres, moças, “coisas femininas” tanto na história da arte como em diferentes textos, especialmente a visualidade produzida pelas indústrias culturais, historicamente responsáveis por estereótipos que refletem o olhar e o desejo masculino. Essas falsas representações conceituam a mulher como objeto de adorno, sedução e dominação masculina.

A boneca Barbie é um exemplo de ícone da indústria da cultura popular que exerceu e exerce ainda uma poderosa influência na construção de subjetividades. Não podemos desconsiderar que para muitas crianças esse é um artefato relacionado à satisfação infantil de brincar, mas que de forma oculta está vinculada ao consumo e a erotização do olhar sobre os corpos.

É interessante uma reflexão sobre como as imagens das barbies contribuem para uma visão normativa sobre o que significa ser uma moça e como elas devem ser olhadas e representadas. Em pesquisas sobre a construção de identidades femininas e também na formação da masculina em relação à feminina, adolescentes apontam a influência de barbies como modelo em seus pensamentos e ações. Diferentes estudos apontam a dificuldade de se descontruírem as mensagens sexistas veiculadas pela cultura visual.

Por outro lado, a arte tem uma potência para acionar certas reflexões, especialmente a arte contemporânea que se materializa a partir de uma negociação constante entre arte e vida, vida e arte. O trabalho de Diego de los Campos, uruguaio que vive em Florianópolis desde o fim dos anos 90, pode provocar nos estudantes a tensão ou conflito, que se estabelece no cruzamento entre o prazer da rememoração e a consciência da análise crítica. É denso e materializa uma sensação de desconforto, uma poética que assombra como fantasmagoria. Arte, consumo e mídia estão presentes. Porém, se trata de ajudar os alunos e a nós mesmos, educadores, a pensar que a arte, para além de sua materialidade, desencadeia emoção e pensamentos.

Letícia C. Mognol, 2014

 

Matéria escrita por Letícia Coneglian Mognol sobre o video “Precipitação” publicada no caderno de Cultura do jornal Diário Catarinense em 14/06/2014

Poética da fantasmagoria
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