Dentro da arte contemporânea, nesta generosa “volta à pintura”, observa-se a persistência de uma forma de abstração (pintura abstrata), que revela uma afinidade de caráter histórico com o Expressionismo Abstrato e com o modernismo europeu. Revolvendo a História da Arte, esta produção discute as possibilidades da pintura enquanto material potencial para a imaginação, a metáfora, a ficção. Retomando modelos dos grandes mestres abstratos esses artistas empreendem uma reflexão sobre o que a pintura abstrata pode ser depois do Expressionismo Abstrato. Entretanto a sua produção não aspira nem a sublimidade ou o pathos daquele Expressionismo, nem o lirismo exuberante dos informalistas dos anos ‘50’. Trata-se de uma pintura intensa, construída e analítica. São puras estruturas abstratas. Estes trabalhos tendem a desenvolver-se como reação ao neo-expressionismo para definir uma nova ordem espacial, muito além de gestualidade apaixonada ou da coloração exacerbada. Informada de toda produção anterior feita no território da abstração, estas obras revelam que estes artistas estão desenvolvendo a linguagem da abstração num caminho que sugere estarmos mais no início de algo do que no fim.
Após 10 anos de estudos e trabalhos na Alemanha, Rubens Oestroem apresenta sua produção de período. Situado claramente na tradição moderna da pintura abstrata, seu projeto pictórico empenha-se no desenvolvimento de significantes técnicos que expressam o sentido contemporâneo do aqui e agora da pintura. Como outros artistas de sua geração, sua pintura é rica de referências de variadas fontes, mas não é obra de um pesquisador anárquico dos sentimentos profundos, nem um liberador de urgências pictórias. Oestroem é um pesquisador de pintura, que dentro de uma ampla concepção dos meios plásticos, insiste em ver arte como um instrumento a serviço do conhecimento, o quadro como obra.
Carregando de expressiva ressonância cromática e calculada densidade, seus trabalhos delineam figurações, cenas, reminiscências descritas abstratamente. No entanto mais importante do que as imagens evocadas são os ritmos sensuais da mão e do braço no ato de fazer essas transcrições. Constituem um documento no ato de pintar. Mais intelectual do que emocional, Oestroem age sem inibições. Sua pintura explora pacientemente o no man´s land, trilhando entre o determinado e o indeterminado , entre a estrutura pictória previamente imposta pelo viés da História da Arte e o espaço do acaso, latitude indefinida do novo, no ato de criar. A reconquista da dimensão do conteúdo é acompanhada da questão da eficiência do métier. Seus gestos enérgicos, suas construções através da justaposição cor/forma, seu rigor técnico resultam numa pintura que, além do puro jogo formal (re) escreve, num diálogo direto com a pintura, uma reflexão possível, uma espécie de ética e dever moral de reencontrar aquelas imagens onde a beleza estava constantemente presente. Seu trabalho tem a plenitude excitante daquelas coisas que estão por vir.

Ivo Mesquita


São Paulo, 1986

 

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