A fotografia nasceu sob o signo do registro, mas, já nos seus primórdios, Talbot, por exemplo, realizava a sua transcendência por meio do mergulho da técnica nas questões da natureza da imagem. Dessa forma, a fotografia alçava voo para o campo da criação e da elaboração complexa e sofisticada da imagem; entrava no universo da arte. Por veredas semelhantes, Filipe Berndt em suas obras supera a questão do mero registro e caminha para a construção artística, contudo optando por estabelecer um ponto de discussão que está aparentemente sobre a fronteira da fotografia como registro e da fotografia como arte inventiva. Muitas vezes, o assunto de suas imagens – lugares e pessoas comuns em situações corriqueiras, como crianças brincando no playground, policiais trabalhando em frente a uma praia ou turistas se refrescando nas águas de um rio – pode sugerir certa banalidade na situação revelada; porém uma segunda mirada é exigida, e uma observação mais analítica e aberta à leitura poética da combinação dos elementos registrados deve ser feita. Descobre-se então o olhar sutil e peculiar do artista ao captar certos momentos. As cores e a composição fazem também com que esses registros ganhem força e singularidade. A luz que Filipe trabalha em suas fotos é sempre aberta e ampla, o que resulta em um aparente clima de estúdio, embora as imagens sejam capturadas in loco, sem a utilização de recursos, como refletores e rebatedores. A cor, elemento distintivo em seu trabalho, parece de maneira saturada, brilhante, mas sempre harmônica na composição, em sua distribuição e em seu equilíbrio. A relação criada entre a iluminação natural difundida dos lugares e a vivacidade cromática de todos os pontos registrados tende a achatar os planos e cria uma imagem de características artificializadas, que, por vezes, evoca a linguagem comumente explorada em propagandas e comunicação de massa e remete às imagens trabalhadas em programas de tratamento de imagens. Essa interferência na percepção da construção do espaço e na distribuição das cores pelo campo enfocado, assim como as situações sutilmente observadas e captadas, elevam essas fotos para além do mero registro e as inserem no campo da discussão da construção da imagem e de sua apreciação. O que nos parece o registro de algo trivial passa, em razão dessa atenta e refinada elaboração, para o campo do engenho e do conhecimento profundo da fotografia como linguagem. Nesse ponto, embora em um primeiro momento possam enganar um observador distraído, as imagens de Filipe Berndt estabelecem o jogo da criação por meio de um raciocínio com o olhar, o que desloca suas imagens da mera retratação de temas para o campo infindável da investigação aguda e da imaginação inventiva, tiram-nas do óbvio e as arremessam no campo do incomum.

Paulo Trevisan, 2011



Texto publicado na edição 07 da revista Santa Art Magazine, 2011

FOCO INCOMUM

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