“O engenheiro sonha coisas claras”
João Cabral de Melo Neto

O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, mestre da Geração 45, inicia seu livro “O Engenheiro” com uma poesia  - “A Paisagem Zero” - referenciada na obra do artista  plástico  Vicente do Rego Monteiro.  E depois de “A bailarina”, aquela que “dança no pavimento anterior do sonho”, ele nos apresenta seu notável poema “O Engenheiro”, cujos versos nos ocorrem no momento em que iniciamos este texto sobre a escultura atual de Paulo de Tarso, o engenheiro que virou artista.
Com efeito, formado em engenharia mecânica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Paulo de Tarso optou pela escultura, depois de estudar publicidade e marketing e trabalhar em duas importantes agências  do setor, a MPM e a DPZ, em São Paulo. Contribuiram fortemente para sua elevação  estudos realizados, no começo dos anos 80, com  Fajardo, Becheroni e Calabrone ,  além do contato, na sequência, por indicação de P. M.  Bardi, com o escultor Piero Moretti.
Desde então Paulo de Tarso tem se dedicado a este gênero de obra de arte com espírito construtivo e aguda sensibilidade. A diferença de Paulo de Tarso de muitos de seus colegas de formação universitária é exatamente a capacidade de sonhar coisas claras, como “a luz, o sol, o ar livre”, os cheios e os vazios poéticos. E porque é capaz de sonhar o azul do vôo, conserva seu poder de pássaro, como diria outro poeta brasileiro, Ledo Ivo.
Tudo começa com “o lápis, o esquadro, o papel; o desenho, o projeto...”, como sugere  João Cabral em seu poema. A escultura  nasce de um desenho, que se transforma em uma maquete e que finalmente  ocupa, com seu corpo metálico, um  lugar no espaço. Nos últimos anos, Paulo de Tarso criou esculturas de mesa de dimensões pequenas,  peças de chão em escala humana ou ligeiramente superior e extensos  relevos de parede, um deles de largura superior a 7 metros. Elas remetem a formas orgânicas, vegetais, embora monocromáticas – brancas, pretas, vermelhas – ou bicromáticas e realizadas com folhas de aço pintadas que descrevem no espaço uma clara sinfonia de curvas e entrelaçamentos e que definem sua poética. Esta produção, que já dura mais de 15 anos, assegura para Paulo de Tarso um lugar entre os mais significativos cultores do tridimensional no Brasil.
Sem se acomodar, todavia,  com o aceito e admirado, Paulo de Tarso iniciou, no ano passado, uma nova etapa de seu trabalho caracterizada pela ausência dos entrelaçamentos e ondulações que tanto identificavam sua obra. Algumas peças aqui expostas  guardam  relação com seu trabalho anterior mas em muitas delas avulta o caráter retilíneo e volumétrico. Nelas as curvas dialogam com as retas e as peças, não raro, apresentam-se como um bloco. Noutras o artista lança mão dos recursos da dobradura e da solda e até das formas rebatidas. Algumas são pintadas e outras não. O conjunto é convincente.
Paulo de Tarso sonha coisas claras. Parodiando Fernando Pessoa, poderíamos dizer que o que nele sente está pensando.

Enock Sacramento, 2009

 

A ESCULTURA DE PAULO DE TARSO

1/2