O fotógrafo Paulo Greuel, que voltou ao Brasil em 2002, depois de viver por mais de duas décadas na Alemanha, liberta suas imagens do estúdio, cria uma série horizontal e sai correndo com a câmera em direção ao mar.

 

Fotografia Contemporânea

O fotógrafo Paulo Greuel vive numa pequena casa, com montanhas no segundo plano e o mar diante dos olhos, num recorte extraordinário de geografia chamado Campeche, em Florianópolis. Não fosse pela presença do homem e sua mão - quase sempre perversa -, diante da natureza, aquele seria um lugar psicodélico, onde se poderia viver, nos dias atuais, um lindo sonho delirante. A figura de Greuel protege, de certa forma, essa simbologia. Não foi por acaso que ele deixou Düsseldorf, na Alemanha, cidade onde viveu por mais de 20 anos, para entregar-se ao tropicalismo de sua vida marota, com dias horizontais, e libertar sua fotografia das quatro paredes dos estúdios, onde cresceu (ele e suas imagens), tornando-se um nome entre os nomes da fotografia contemporânea internacional. Se é que esse fato tenha algum significado mais profundo diante de um artista que pensa a sua arte como fluxo para os seus dias: tomando a fotografia como auto-retrato, Paulo Greuel é um nome desde que assim foi batizado. “O choque em posteridade é uma introdução ao olhar fotográfico de Paulo Greuel”, escreveu o crítico Jayro Schmidt, num texto intitulado As Inventivas do Olhar.

Gilberto Chateaubriand, que diz ser “seu devoto colecionador” e tem em seu acervo 16 imagens de três séries distintas, diz que “as imagens de Greuel me transportam, com a maior felicidade, para o seu mundo fantasmagórico campecheano”. O que faz o artista diante da emoção do outro? Metáfora como resposta: a arte pertence ao mundo tanto quanto independe dele.

Três esponjas sobre uma cartela triangular, no início dos anos 80, e ali estava o começo da pesquisa de imagem na qual o fotógrafo se insere até hoje. Naquele recorte construtivista, as cores do país deixado para trás modificavam o método e mantinham aquecido o frio que a alma poderia sentir nos seus momentos de procura.

 

A imagem o levou a fotografar para revistas de moda e campanhas publicitárias em Milão e Nova Iorque. Em seguida, Greuel passou pelo preto e branco para chegar, talvez, a uma das suas séries mais provocantes, Bildnis, que teve quatro imagens exibidas na Mostra do Descobrimento, em 2000, e depois, em grande escala, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2002. Bildnis, um conjunto de retratos onde a cor tem uma aderência ainda “intelectual”, leva para o percurso do fotógrafo questões interiores: se um retrato imaginário foi pintado por Rubens, e não foi isso mesmo o que ele fez, poderia haver a salvação de uma figura que, ali, na tela, seria construída com olhos de uma outra, encarando o lado de fora da eternidade, na obra de um outro personagem, o artista. Com seus retratos levados para um sistema indireto, Greuel deu início à busca do seu “outro mesmo eu”, criando o seu próprio Theatrum Mundi.

Atualmente vem dos seus dias horizontais a ação do fotógrafo. Tudo explodiu, saiu correndo, entregou-se ao vento, entrou no mar para provocar a “felicidade’ da qual Chateaubriand nos fala. Dos seus dias de “contaminação campecheana”, segundo o próprio diagnóstico do artista, surgiu <Sonho Tropical> (2004), uma invenção particular, onde os registros imagéticos produzem uma realidade inteiramente liberta, e, ao mesmo tempo, precisa, da noção entre tempo e espaço. Dunas, mar, céu, vegetação, gravetos e o vento Sul tornam-se protagonistas da fotografia e dos dias do homem que volta às suas origens naturais para ultrapassar a questão virtual da técnica, e entrar num mundo, digamos, de sonhos, distante de qualquer fragmento que se aproxime do tédio. Assim encontra-se o fotógrafo nos dias de hoje: evoluindo no sonho, percebendo suas conseqüências, encontrando a abstração na série mais recente, Paraíso Tropical, e tendo que, para fotografar, interromper sua verticalidade física, deitar-se, e manter-se no mesmo nível do mar.

 

Diógenes Moura, 2006

 

Texto publicado na revista Wish Report em março de 2006.

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FOTOGRAFIA CONTAMINADA PELO VENTO