Walter Zanini, 2001


Texto para o livro “Vlavianos – A práxis da escultura”, Ed. Globo, São Paulo, 2001

As formas da visualidade de Nicolas Vlavianos têm-se renovado no tempo mantendo uma forte estrutura identificadora. Do mesmo modo que se abre continuamente ao fluxo das sugestões do mundo exterior, o escultor preserva uma percepção das mais ordenadas na procura de significados para a sua obra. O resultado dessa dialética é a evidente unidade das construções de diferentes períodos por entre o perfil progressivo e dinâmico de cada um deles.
A opção por certos metais e a maneira de tratá-los fazem desde logo aparecer essa unidade. Há muito habituamo-nos a reconhecer suas peças ao contato mais superficial. Embora também utilize o alumínio e o latão, o aço inoxidável tem sido uma preferência dominadora do artista. Uns e outros passam por elaborações semelhantes de cortes, dobras, encaixes, superposição de lâminas parafusadas, fusões de solda autógena, incisões, perfurações, etc. Por esses meios surgiram representações da figura humana e de plantas, árvores, pássaros, plantas-pássaros, nuvens, além de motivos de imaginação mais livre — todo um plano em suma de existência ôntica (às vezes excepcional para a destinação escultórica) transposto em formas geométricas afetivas. A obra individualiza-se, finalmente, pela interação cósmica dessas imagens, ou seja, por uma compreensão de sua congeneridade.
No passado, tivemos a oportunidade de escrever sobre o interesse de Vlavianos pelo homem (entendido em vários sentidos metafóricos e sobretudo em níveis míticos por convicções em remotos valores remanescentes no ser moderno), interesse estendido a selecionados elementos da natureza — que acabamos de lembrar — e de forma inusual como no caso das plantas e das nuvens.
O que se afirmou nesses estágios de uma produção muito intensa, anterior a 1980, é uma complexa linguagem que se efetiva na interface dos princípios orgânicos e geométricos. De fato, formas da natureza e formas abstratas participam, a título igual, como se complementarmente, dessas construções que são identicamente montagens. Elas chamam de imediato a atenção pelo fato de serem ordenações severas mas que apresentam uma harmonização problemática, uma vez que suas estruturas precisas acham-se sempre sob a tensão de fatores de desestabilização. Sem dúvida, há nas linhas abrangentes do seu processo instaurativo uma lógica rigorosa que as preside — o que muitas vezes leva a pensar na herança cultural do autor, no que há nela da paidéia clássica — e, no entanto, nesses equilíbrios também residem surpresas solapadoras. Os espaços de Vlavianos, que impõem nitidamente a visão como um relevo, com efeito, personalizam-se também pelos registros dinâmicos de sulcos, hachuras de solda, repoussés, varetas entrecruzadas etc., geradores de ritmo, movimento de planos, alternâncias de luz e sombra, além de explorar os reflexos do aço inoxidável. Eles têm o mister de trazer contrapartida dramática às partes imaculadas dos volumes ou às superfícies lisas e diáfanas com as quais finalmente formam um todo. Essa escultura particulariza-se pela busca de diferentes situações expressivas, pelas freqüentes passagens de uma situação plástica para outra, no limite das quais intervém não raro o preciosismo dos engastes.
Numa peça de 1978, a construção mais ou menos como um “U” quadrado, de planos arquitetônicos puros, serve de apoio a uma forma orgânica ou natural de expansão complexa, tratando-se aqui da representação de nuvens, tema pouco comum em escultura, mas exemplo, entre outros, da característica interação de formas abstratas e figurativas. Em nível talvez subliminar, conduziu o rígido segmento inferior situado na concavidade do “U” a uma conformação de geometria de máquina. Da obra, aliás, pode-se inferir outros simbolismos, evidência das disponibilidades semânticas do autor.
Como sempre, há continuidade e há variações no que veio a seguir na produção mais recente, desde o começo da década de 80. A máquina, menos pela sua beleza racional do que pelos seus elementos funcionais, ou melhor ainda, pela idéia de seu funcionamento, passou a absorver toda a atenção do artista. Em sua iconografia passada ela articulava-se a outras formas como nas figuras robotizadas intituladas “Personagens”, do decênio de 60 e em construções como a que citamos. Mas é nessa última etapa, compreendendo a realização de uma série de obras consideradas em estágio de maquete (algumas transpostas em escalas definitivas), que a máquina torna-se referência em sua plenitude.
À inventividade anterior acrescenta-se assim o desenvolvimento de uma experiência que explora conceitualmente o mundo visceral dos objetos industriais. Idéias de pistões, engrenagens, cilindros e outros órgãos mecânicos, compõem o espaço como imaginários elementos representativos de uma realidade racional. Entretanto, nessa inspiração na funcionalidade dinâmica das peças tecnológicas — em que inclui o monitor do computador — não cessa de manifestar-se a intimidade de uma geometria afetiva, capaz de criar distorções e assimetrias por onde são reiteradas as situações conflituais. Essas peças fiéis à concepção do relevo não raro constituem-se de duas partes: a “engrenagem” de aço inox, brilhante, sugerindo o movimento e a carapaça feita de latão de cor fosca, em forma de quadrado ou retângulo em que aquela é embutida. Resulta um contraste entre a ilusão do movimento dos metais reluzentes e a relativa estática das caixas opacas continentes.
Em outras obras muitas vezes é aplicada a solda para provocar efeitos de alta corrosão na matéria e assim recriar à rebours os volumes geométricos, colocando-os em parcial estado de obsolescência. Não obstante as dificuldades técnicas evidentes para provocar tais resultados contextuais, o escultor é bem sucedido e poderíamos dizer que alcança aquele “encontro de todas as conveniências” de que nos fala Delacroix.
Último estágio, a partir de 1990: a série de representações de utensílios, máquinas e aparelhos eletro-domésticos, por onde se manifesta um desdobramento do interesse pela forma industrial (inicialmente investigada, como vimos, nos seus aspectos de geração de movimento, sob dominante visão bidimensional). Aqui, trata-se de objetos tridimensionais e sem o ponto de vista privilegiado, antes fundamental. O que muda sobretudo é a introdução de um fator de descontração de humor e de satisfação lúdica.
Em verdade, seu objetivo era o de realizar peças de grande porte a partir de uma impressão recebida diante de máquinas gigantes empregadas na construção de rodovias (projeto que pretende concretizar). Porém, fatores principalmente de custo moderaram suas intenções e o desviaram para uma classe de instrumentos menores como os pequenos rolos de nivelar asfalto ou os escovões. Além disso, voltou-se para alguns objetos que são “cult” nas vitrinas dos shoppings.
As relações da arte com a máquina atravessaram o século em múltiplas e ricas instâncias de reflexão, seja de indivíduos como de movimentos, observando-se no avanço do tempo a perda das cargas negativas que pesavam nessa aproximação e o descrédito das influências ideológicas nela incidentes. Em nosso artista, a vinculação que aproveita uma invejável experiência dos metais e técnicas artesanais longamente apuradas, delimita-se ao plano do comprazimento estético, provocando o humorado deslocamento dos objetos de uma ritualidade para outra.
Membro do círculo de valores principais da escultura moderna no Brasil, Vlavianos marca sua obra pela concomitância do vigor e do refinamento de espírito, comprovando, hoje como no passado, uma capacidade criadora que certamente nos reserva novas revelações para o futuro.

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