Jorge Coli, 1997


Texto para o catálogo da exposição “Rever”, Galeria Ruy Sant´Anna, São Paulo, 1997

IMAGENS E PINTURA

 

A grande multiplicação das imagens, constatada com insistência, e a ideia moderna da “picturalidade da pintura”, entendida como núcleo essencial, são dois opostos complementares na sensibilidade contemporânea. Eles permitem, em ensaios ilustres ou no lugar comum das colunas jornalísticas, o efeito repetido que concebe as reproduções enquanto esvaziadas de substância, por um lado, e por outro, a  celebração, às vezes quase mística, dos originais.
As atitudes determinantes na produção de Screnci parecem encontrar-se em interstícios misteriosos, entre pintura e pintura. Pintura enquanto imagem, ao reproduzir o visível, inserida assim na grande tradição mimética da arte do Ocidente. Pintura, também, em certos casos, como história de si. E pintura ainda enquanto um conjunto de meios postos não apenas ao serviço da imitação, mas funcionando como interferentes como agentes de um resultado novo.
Nessas telas -  quer o artista aceite, quer não – existe um princípio obsessivo de ordem, que determina, pela repetição, o lugar das imagens. Nada das destrezas próprias dos gestos líricos, das manchas que buscam dar uma dignidade “moderna” a colagens ou citações. Nada também do compor evidente e esperto, que permite inclusões harmônicas. Na arte de Screnci, a repetição surge como um dado de rigor.
O artista parece escolher uma falsa facilidade: ordenar e reproduzir. Nesta sequencia a ordem precede a imagem, que deve encontrar o seu modelo de inserir-se na ordem. Mas é justamente aí que a ideia de facilidade se dissipa e que começam, para quem busca analisar esta arte, as dificuldades sérias.
Screnci não utiliza as imagens repetidas como uma sinalética de cultura – seja ela a do quotidiano ou a dos museus, imagem do objeto ou imagem da imagem, da televisão ou de outros quadros. Sem resultado irônico ou irrisório, embora a crítica por vezes possa surgir dentro de uma densidade complexa, suas obras ignoram a simplificação emblemática ou a simplificação tout court. Primeiro, porque a própria organização dessas unidades determina-se de maneira altamente sofisticada, onde podem intervir desde a qualidade cromática do fundo até jogos especulares entre diferentes telas que assumiram imagens de quadros de outrem. Depois, porque as imagens recobradas são submetidas a um tratamento propriamente amoroso.
Cada vez que Screnci toma uma imagem, ele emprega o mesmo cuidado e minúcia de um monge com sua iluminura. Não, porém, para reproduzi-la de modo idêntico, pois não hesita em incorporá-la em si próprio para que o amor se faça fecundação. Ele desdenha o idêntico, a nitidez, as cores de origem, criando efeitos visuais e cromáticos, admiráveis em si e nas relações estabelecidas com o conjunto. Ele compreende a pintura, não enquanto desgastada picturalidade “essencial”, mas enquanto o campo de onde emergem imagens através de seus específicos meios de artista, que são contidos e controlados, habitados por uma espécie de prazer e de afeto silenciosos. Nesse campo, as imagens afirmam-se e subtraem-se: as camadas de pigmentos, de tintas e de vernizes encarregam-se de ocultar e assim revelar como o faz a ordem, que a um só tempo torna visível e relativo.
As mil e uma imagens e a sequência: I A princesa no espelho, II O encontro nos espelhos, III A negra no espelho – obras de um nível tão excepcional que algum museu mais clarividente deveria adquiri-las sem hesitar – encontram-se em situações opostas. A primeira contém exatamente mil pequenos retângulos inscritos em uma grande tela; a segunda consagra-se a evidenciar amplamente dois grandes ícones da pintura e a metamorfoseá-los, em pares que se refletem, através de inesperadas superposições. O contraste de escala, em um e outro caso, não modifica a atitude do artista, que permanece a mesma: nem citações, nem referências, nada de exterior, mas incorporação dentro de um campo afetivo que se assenhoreia, adquire o direito da permanência ou da transformação. A decorrência é indiscutível: essas imagens são claramente nova arte – arte de Screnci.
Basta percorrer a obra de Screnci desde os seus inícios para perceber que ele não busca nunca a astúcia, o truque, e que, ao invés, suas telas, muito controladas, são fruto de uma efetiva necessidade da qual parecem não conseguir escapar. Dessa maneira, Screnci é indiferente tanto às ortodoxias modernas quanto às seduções duvidosas de uma qualquer pós-modernidade. Sua picturalidade não é um “em si”, suas imagens não são esvaziadas. Bem ao contrário, a primeira confere substância às segundas, e ambas criam um prazer incessante de descoberta, prazer que liga a inteligência ao coração. Situadas no campo do afeto que as respeita e modifica, essas imagens fecundadas trazem uma jubilação ao espectador, pois elas também lhe são familiares, pois ele pode identificá-las e saborear suas mudanças.
A regularidade e o comedimento da arte de Screnci paradoxalmente favorecem essa alegria calma, prenhe de prazeres sutis e silenciosos.

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