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Se os anos oitenta foram marcados, tambem entre nós, pela reabertura do campo pictórico, hove, ao mesmo tempo, enorme ocorrência de equívocos quanto ao significado desta retomada. Vemos isto em muitos dos trabalhos apresentados pelas recentes exposições de carácter histórico no Rio de Janeiro e São Paulo. Sem dúvida, defrontada com a presença de um Jorge Guinle que naqueles anos produziu obra de rara densidade plastica, toda euforia de epoca parece flutuar na superficie do fenómeno artístico. Decantação, hoje mais visivel do que nunca, que demonstra a superficialidade da palavra de orden geracional, em muitos casos não intentando outra coisa que a simples comercialização publicitaria de um comportamento juvenil. Passado o tempo, havendo nele quem incorporesse o que de melhor se refletia estéticamente, temos hoje uma leva de pintoras oriundos dali que, afastados da banalidade a que aderiram ou os envolveu desavisadamente, conseguiu reafirmar-se com consistencia e vem buscando caminhos variados para tornar a longa tradição da pintura um meio de pensamento plástico. Podemos rapidamente enumerar, sem que facamos juizos e distinções que devem ser feitos, alguns desses artistas que suscitam a atenção comum : Paulo Pasta, Cristina Canale, Fabio Migues, Rodrigo Andrade, Beatriz Milhazes…. Não intentando fazer listas, somente menções que sugiram o campo, caberia incluir a produçao de Marcus André nesta constelação para pensarmos ainda de um outro modo a arte que faz-se hoje entre nos.
As recentes pinturas realizadas nos anos 2000 dão uma virada significativa em seus trabalhos dos anos 80/90 ao proporem-nos outras circunstâncias pictóricas e desdobramentos. Marcus André rompeu através de experiências com a gravura, feitas uma parte aquí e outras nos Estados Unidos, seu primeiro contato com a pintura no clima eufórico da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, podendo retornar a lidar com os pincéis durante toda a década passada pela via de uma restrição radical de seu expermento artistico de meios - seu vocabulário cromático, sua dinâmica de superficie com espesura de camadas, sua captação de luz com materias reflejos e densidades translucidas a recobrirem o quadro – produzindo uma enorme afinidade sua com uma encáustica bem carregada que manipula com grande domínio. Para além dessa restrita dieta de atelier, se ocupou em desvencilhar a experiência da fatura de um figurativismo arbitrário e banal com qual se engraçara pela onda neo-pop daqueles primeiros anos. Elegendo, ou melhor, descobrindo a paisagem como sua fonte de inquietude, abriu mão de outro equívoco que foi o de dar centralidade a pesquisa da “imagen” que obsedou os olhos de muita gente naqueles anos 90 deslumbrados com as “novas midias”. O que pareceria mera pofissão de fe artistica, inevitalvelmente conservadora pelos termos da adesão se considerada por qualquer adepto da inovação pura e simples, revela-se hoje um consistente aparato de presentificação da pintura bem mais promissor aos nossos olhos do que outras tantas estilizações glorificadas por agora.

 

Afonso Luz, 2004



Trecho de texto para o catálogo de exposição individual na Galeria Virgilio, São Paulo SP, 2004


 

“Paisagem Deslocada”