CAMINHO SOBRE O FIO DA LÂMINA

 

A proliferação de situações que acontece através do trabalho de Letícia Cardoso se dá em diversos meios, como a pintura, o desenho, o audiovisual e através de intervenções tanto na esfera pública como privada. Desde suas primeiras produções, transita entre meios como quem procura atender as especificações de cada linguagem sem se submeter a nenhuma, situando-se longe das especializações, na medida de sua proximidade com a presença íntima do indefinível de uma poética, que encontra a cada desdobramento de sua obra.

Das oportunidades que tive de acompanhar seu processo de elaboração de um trabalho, guardei a certeza de uma atitude especial em relação à produção de arte: Letícia trabalha sem rede de segurança. Nada garante à artista que os interesses aos quais empenha meses de dedicação e afeto irão resultar em algo como o que costumamos ainda chamar de arte. No começo, são pequenas impressões, anotações de textos ou imagens percebidas com uma ênfase ligeiramente diferente das outras tantas situações cotidianas. A partir daí Letícia imerge por meses ou anos sem saber no que irá resultar. Sem saber se desse mergulho voltará com algo para partilhar conosco.

Letícia opera no espaço silencioso onde a natureza, quase bruta, faz esgarçar nossos sistemas de linguagem como ondas na margem. A matéria de suas obras é como um fio de uma navalha onde a menor ênfase pode desequilibrar a tensão delicada do arranjo. Os assuntos de interesse de Letícia, os materiais que utiliza, os procedimentos que escolhe costumam ser os mais perigosos. O menor descuido pode banalizar a idéia, qualquer grosseria ou pressa pode transformar a obra sentimental ou moralista. Mas Letícia parece ter a posse de um mapa secreto que lhe permite caminhar entre os perigos sem cair nas armadilhas. É uma coragem delicada que conduz os trabalhos de Letícia na sua aventura na linguagem, a qual devemos acompanhar, tal como a artista sem nada nas mãos ou nos olhos como defesa.

 

1/5

Fernando Lindote, 2006