O mundo contemporâneo está pautado por uma constante aceleração. As tecnologias de comunicação possibilitam a circulação de um volume de informações a uma velocidade nunca antes vista. Novas escalas de mensuração do tempo são criadas para tentar apreender numericamente aquilo que a percepção humana não alcança. Nanossegundos e picossegundos fazem parte de um vocabulário técnico que se dissemina em nosso cotidiano. E que, de tão abstratos, passam a ser compreendidos como metáfora da rapidez da vida, da passagem dos minutos, horas, dias .

 

Fernanda Valadares nos oferece o oposto a tudo isso. Sua obra pede tempo. Pede que o olho se sensibilize, que o corpo todo pare. Seja partindo de amplos horizontes, ou de planos construídos, a artista nos convida a desacelerar, a escutar o silencio e a tentar compreender porque a noção de sublime parece não mais fazer sentido hoje. Apenas parece. 

 

Na série Himalayas percorremos cordilheiras em um continente inventado. Nessa geografia particular, realidade e ficção se perpassam, plenitude e imensidão se encontram. Na obra de Fernanda, já não importa saber a que lugar a monumentalidade daquela paisagem corresponde. São os detalhes que tornam suas montanhas uma montanha qualquer e ao mesmo tempo única. Um lugar que existe para a artista e para aqueles que se permitem o momento da percepção. Onde toda a virtualização do hoje se materializa. E que em sua materialidade aciona memórias de uma arquitetura natural existente. Um espaço absoluto e sublime.

 

Desse sétimo continente, estado mental, emergem outras possibilidades. Nele o silencio fala e a comunicação ocorre por infralinguagem . Aqui os significados não são fixos, mas se deslocam de uma referencia a outra, deixando as imagens falarem por si, permitindo que as trocas se estabeleçam a cada encontro. Como Fernanda, que nos mostra espaço para falar de tempo. E falando de tempo nos faz vivencia-lo, pois somente assim podemos experienciar sua obra.

 

Mesmo quando a artista representa espaços internos, como em 23º35'17S 46º38'13"W e 23º34'15"S 46º42'18"W, lacunas preponderam e o que não está presente aparece. O grande formato, a ausência de cores, deixam espaço para a contemplação e reflexão. Para Fernanda vazio não é o mesmo que nada. Ele abstrai ruídos e configura possibilidades para o visível. 

 

Nesse continente imaginário os segundos se alargam. E em seu mapa mental – cujo tempo é a principal dimensão – o onírico permite que transcendamos da forma e da técnica para questões que beiram a metafísica e (porque não?) a política. Que da imersão física no trabalho e pensamento poético da artista se possa compreender uma outra forma de lidar com a realidade contemporânea, buscando um estar no mundo que extrapole a escala comprimida dos nanos e picos para uma existência mais simples e afetiva. Que esse fluxo constante de imagens desacelere até termos a possibilidade de momentos de parada. E que mesmo confrontados ao peso dessa quantidade de informações – visuais ou não – possamos respirar com maior leveza. Porque é a partir dessa noção de leveza que conseguimos, por contraste , compreender o peso de cada objeto, ação, pensamento, átomo.

 

Pensar nesse peso é fundamental para Fernanda, alguém que continuamente se debruça sobre a matéria para fundir camadas de cera. Mesmo que ela se enxergue como pintora e faça da encáustica seu principal meio e suporte, essa mostra nos possibilita uma imersão num universo muito mais amplo. Madeira e papel enquanto matéria adquirem carga simbólica e nos mostram uma artista de reflexão poética e expressiva complexas. Aqui também há camadas a serem desveladas. Nesse sétimo continente, sutilmente delineado na ponta do grafite, não há limites ou fronteiras. Tudo são possibilidades

Bruna Fetter, 2014



Texto para a exposição “O Sétimo Continente”,Zipper Galeria, São Paulo, 2014

O SÉTIMO CONTINENTE
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