Ares e águas

O vento varria as folhas,

O vento varria os frutos,

O vento varria as flores...

 

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De frutos, de flores, de folhas.

 

O vento varria as luzes,

O vento varria as músicas,

O vento varria os aromas...

 

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De aromas, de estrelas, de cânticos.

 

O vento varria os sonhos

E varria as amizades...

O vento varria as mulheres...

 

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De afetos e de mulheres.

 

O vento varria os meses

E varria os teus sorrisos...

O vento varria tudo!

 

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De tudo (1).

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Anete Ring é uma artista que autoriza doses de vento do acaso a soprar no processo de construção de suas pinturas. Isso as torna mais cheias de vida, de complexidade. E de uma certa serenidade, também.Como no título do livro de Marshall Berman (2), em sua obra, tudo o que é sólido--tintas, telas, pinceis--se compõe e se desmancha na composição de paisagens de tons etéreos. A ação se configura no local do não planejado e se transforma na ação que carrega o olhar para longe.Penso que essas paisagens quase abstratas são verdadeiras cenas de desmanches, no sentido de que nos retiram do olhar impregnado de imagens prontas de consumo, criam hiatos dentro do fervilhante e constante chamamento da mídia. Nos libertam da necessidade de reconhecimento imediato e analítico das imagens do mundo.Os horizontes de Anete Ring são misteriosos porque feitos a partir de uma combinação de razão e intuição, de verdade e de sonho, de vontade construtiva e de fluência do acaso. Ela conta que a temporalidade de sua pintura não tem regras. As obras podem nascer de forma rápida ou muito lenta; podem ter grande densidade, sutilmente revelando as muitas camadas de outras pinturas que estão por baixo do que se vê na superfície, ou podem ser diretas, emanando uma paisagem que se configurou numa certa economia certeira de pinceladas. É interessante notar que apenas um pouco de pintura seja capaz de construir um lugar, lembra a artista.Essa ausência de fórmulas desenha uma qualidade de fluidez das obras, que apesar da variedade de tonalidades e texturas—ela pode utilizar areia, bastão a óleo e outros materiais junto com a tinta acrílica—podem parecer feitas apenas de ar.São obras que habitam o entre-mundos, e se colocam nos meio-espaços entre figura e abstração, densidade e leveza, ação e suspensão. São tão intuitivos quanto exercícios mentais de construção plástica.Eis que, nessa exposição, outros elementos passam a ser pensados como questões de desenho, de pintura. Para além de voláteis horizontes, numa segunda série de obras, Ring se debruça sobre a sensação de corpos de água. As medusas são o tema de inspiração para esse outro conjunto de obras.Também chamadas de águas-vivas ou mães-d´água, as medusas emprestam seu nome da mitologia grega, em que uma personagem feminina tem o rosto carregado de serpentes, no lugar de cabelos.Beleza e perigo estão no jogo dessa escolha formal.

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Pensando bem, medusas são formas aquosas por excelência. Esses seres, animais num limite entre reinos, beirando uma forma vegetal, tomam corpo na situação de um eterno embate entre a fluidez aquosa e o perigo certeiro dos tentáculos; entre a fragilidade de uma forma bela e a iminência do dano venenoso.Nas obras de Anete Ring, essa tensão ganha movimento, gesto, espessura. Aqui, a artista utiliza suportes que reverberam a transparência das próprias medusas: plástico, acrílico, acetato. Eles são riscados, sulcados e recebem linhas que se desgrudam da superfície bidimensional, ganhando soltura no espaço. Nessa ação, Ring aceita o enfrentamento de um novo mecanismo de ação plástica, mantendo-se, no entanto, num eterno entre-lugares.

 

(1) Manuel Bandeira, 2001

Canção do vento e da minha vida, em Manuel Bandeira. Meus poemas preferidos. 7.ºed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

(2) Marshall Berman, 2007

Tudo o que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Katia Canton

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