Tangível e Atemporal

À primeira vista, os trabalhos aqui apresentados podem parecer estranhos ao percurso do artista que há décadas faz da pintura o meio privilegiado para a sua criação. É verdade que nas séries de Memória Suspensa, Ayao Okamoto pretere telas de grandes dimensões, trinchas e gestos largos. A cozinha da pintura dá lugar agora para composições mais intimistas e reflexivas.
Não se trata tão somente de uma temática – a natureza – eleita em tempos de preservação s de discursos contestatórios sobre aquilo que fizemos  com outros seres vivos. As estampas, desenhos, anotações, signos, textos, fazem parte de uma extensa pesquisa visual-gráfica. Condensam, ao mesmo tempo, técnicas estudos, impressões pessoais e por que não dizer, desejos. Os peixes entintados, os nomes de rios, as frutas geometrizadas se mostram como registros de uma memória que emerge no intervalo da experiência individual e coletiva.
E é aí o singular da linguagem criada por Ayao. Paradoxalmente, somos convidados e visitados por estas composições do artista. Elas reclamam a atenção e a crítica do espectador, como se fôssemos convocados a compartilhar com ele um certo universo da Razão. Mas como poesia que é, somos também tomados pelas possibilidades de sentidos oferecidas por ele quando imprime sobre o papel a materialidade da natureza e a naturalidade do material. Jogo de palavras? Talvez. Na obra de Ayao, um jogo de imagens em que a transparência se faz pictórica e a pintura se faz tangível.
Mas Ayao Okamoto nos fala, sobretudo, do Tempo. Do tempo do artista, do tempo como categoria a priori, do tempo como criação humana. Suspende imagens e palavras que são tão conhecidas por nós, quanto ignoradas. Pendentes de significação, as imagens que aqui são apresentadas trazem a verdade da matéria e o irresoluto que é a vida. 

Alexandra Nakano de Almeida, 2009
 

Texto para catálogo da Exposição “Memória Suspensa”, Caixa Cultural, Brasilia DF,2009

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